
Clube de canoagem baiano certifica 1ª turma de Aprendizagem Profissional
Clube de canoagem baiano Kaiaulu Va'a certifica a primeira turma de Aprendizagem Profissional de Remo no Brasil

Vamos falar sem rodeio, porque esse assunto não aguenta mais tapinha nas costas nem discurso bonito. Em 2025 já registramos incidentes demais envolvendo remadores amadores e atletas experientes colocando vidas em risco. Não foi um caso isolado, não foi azar, não foi “condição atípica”. Foi comportamento. Teve gente à deriva, canoa que naufragou, mar virando e, mesmo assim, a leitura que muitos fizeram foi a mais confortável possível: “foi um grande aprendizado”. Mentira. Deu ruim porque a segurança ficou em segundo plano.
Teve iniciativa boa, sim. Teve protocolo de segurança sendo criado em Niterói, discutido e apresentado. No papel, ficou bonito. Mas a minha impressão é que, na prática, virou aquele clássico “para inglês ver”. Digo isso porque continuo vendo escancarado nas redes sociais foto de remador indo pro mar sem colete salva-vidas, fingindo que não é com ele e, pior, levando gente inocente junto. Alunos, iniciantes, pessoas que confiam cegamente que quem está organizando a remada sabe o que está fazendo e vai garantir que todos entrem e voltem do mar em segurança. Confiança essa que, em muitos casos, está sendo traída.
É assustador ver clubes que já perderam canoa, que já tiveram alunos à deriva em mar revolto, tratando o episódio como “aprendizado”. Como se o mar tivesse acordado de mau humor naquele dia específico. Logo depois, tudo segue igual. Mesmos hábitos, mesmas decisões erradas, mesma negligência com equipamento básico de segurança. O colete continua sendo visto como opcional, como exagero, como coisa de quem “não confia”. Confia em quê? Na sorte?
No Rio de Janeiro também houve tentativa de criar um protocolo de segurança. Eu mesmo participei do início desse processo. A intenção era boa, o debate foi sério, mas esbarrou num problema velho e conhecido: a total falta de disposição dos clubes em impor uma cultura de segurança. Porque impor dá trabalho, gera desconforto e faz perder aluno que não quer seguir regra. E aí surge a escolha errada: agradar no curto prazo ou proteger no longo prazo.
A realidade é dura e não pede licença. Estamos no Verão, com mar mais dócil, janela boa e uma sensação enganosa de controle. Mas o Outono e o Inverno chegam todo ano, sem falhar. E quando chegarem, vão escancarar de novo os mesmos erros, só que com consequências mais graves. Se continuarmos negligenciando a segurança, não adianta reclamar quando órgãos que não entendem nada de Va’a resolverem criar regras de cima para baixo. Regras que podem inviabilizar economicamente clubes sérios ou penalizar justamente quem tenta fazer o certo, enquanto os iluminados ignorantes seguem se achando acima de qualquer responsabilidade.
Segurança não é inimiga da cultura, não é frescura e muito menos falta de coragem. Segurança é maturidade. Ou a gente assume isso agora, por vontade própria, ou vai assumir depois, por obrigação. E, como sempre, a conta chega.