
Kaiali’i Kahele é o 2º havaiano nativo da história a assumir uma cadeira no Congresso norte-americano
Defendendo pautas como o respeito à cultura polinésia, Kahele é o segundo nativo havaiano a assumir um ... leia mais

Durante séculos, os navegadores polinésios ancestrais viajaram pelo Pacífico em grandes canoas a vela, usando as informações do mundo natural como guia de navegação. Em especial, a habilidade de construir embarcações que permitiram essas conquistas foi passada de geração em geração por líderes espirituais, especialistas e detentores de conhecimento antigo, conhecidos como “Tohungas” ou “Kahunas”.
Esses homens eram treinados para compreenderem a energia da natureza de forma a serem guiados, entre outras tarefas, na escolha da melhor árvore para se fazer uma canoa. No entanto, até poucas décadas atrás, esse conhecimento milenar estava suprimido a tal ponto que as habilidades tradicionais de construção e navegação dessas embarcações tradicionais quase se perderam para sempre.
Em razão de uma série de fatores decorrentes do processo de colonização, como a imposição de uma nova cultura, outras tecnologias e o agressivo declínio populacional das populações nativas, em consequência direta de doenças trazidas por estrangeiros, para as quais não tinham imunidade. Na primeira metade do século XX, muito do que se sabia e se admirava sobre as antigas navegações foi se perdendo e caindo em descrédito. Assim, as grandes travessias polinésias passaram a ser cada vez mais vistas como “obras do acaso”.
Na década de 1950, um historiador neozelandês, chamado Andrew Sharp, reforçou essa descrença na capacidade de navegação dos povos originários do Pacífico, ao defender a tese de que as ilhas daquele vasto oceano não poderiam ter sido alcançadas por viagens intencionais promovidas por essas populações.

Sharp considerava as canoas “frágeis demais” para enfrentar longas viagens pelo oceano e, em sua visão, os antigos polinésios não teriam as habilidades necessárias para navegar até um destino pré-estabelecido em um ambiente tão amplo. Segundo sua teoria, as ilhas teriam sido descobertas ao acaso, por pescadores perdidos no oceano, entregues a situações em que o melhor que poderiam fazer era boiar à deriva pelas correntes e esperar ter sorte de encontrar terra firme. Décadas depois, em 1970, o debate acadêmico sobre a capacidade de navegação dos polinésios ainda gerava debates acalorados.
Até que, no Havaí, um grupo de entusiastas se cansou de embates teóricos e resolveu encerrar esse assunto de forma empírica. Ben Finney, um antropólogo, Herb Kawainui Kane, um historiador-artista, e Charles Tommy Holmes, um marinheiro, decidiram que era hora de provar que Sharp estava errado.
Inspirados pelo Renascimento Havaiano, um movimento cultural e social iniciado naquela década, focado na revitalização das tradições nativas, que haviam sido reprimidas pelos processos de colonização, eles fundaram a Polynesian Voyaging Society tendo como objetivo refazer as ancestrais viagens de migração da Polinésia. O plano era construir uma canoa de casco duplo, baseada em desenhos antigos e navegar para o Taiti usando a navegação celestial, provando, assim, as habilidades de seus antepassados.
Contudo, restavam apenas cinco navegadores em todo Pacífico com o conhecimento necessário para conduzir essa canoa através dessa viagem à maneira ancestral. Todos viviam na Mircronésia, e o mais novo deles, Pius “Mau” Piailug (na época com 41 anos de idade), habitante do pequeno atol de Satawal, com 500 habitantes, foi o encarregado ensinar-lhes a arte da navegação oceânica em embarcações tradicionais de casco duplo. Com a ajuda de Piailug, eles navegaram a canoa chamada Hōkūleʻa (“Estrela da Alegria”) do Havaí até o Taiti, enterrando de uma vez por todas a tese de Andrew Sharp.

A Polynesian Voyaging Society tornou-se um marco e foi o início de um movimento pelo renascimento e reunificação da cultura polinésia entre as ilhas do Pacífico. Piailug então escolheu um sucessor para repassar seus conhecimentos: o havaiano Nainoa Thompson.
Thompson levou adiante a missão cultural da Polynesian Voyaging Society realizando uma série de viagens oceânicas com a Hōkūleʻa. Foi então que, ao viajar à Aotearoa (Nova Zelândia), para estudar as rotas do sul do Pacífico, conheceu Hek Busby Northland, navegador e escultor de canoas igualmente empenhado no resgate da antiga tradição da construção das “Wakas”, como são chamadas as canoas em maori.
Nainoa e Hek estabeleceram uma conexão que durou uma vida inteira – e confirmaram outro destino para a Hōkūle’a: em 7 de dezembro de 1985 – 16 dias após sua partida da Polinésia Francesa – a Hōkūle’a chegou a Aotearoa, materializando a viabilidade de outra rota ancestral polinésia.

Esse episódio deu forças para que Hek Busby tivesse o apoio necessário para a construção da “Te Aurere”, a primeira canoa polinésia de viagem feita na Nova Zelândia em 700 anos. Durante a construção, Mau Piailug hospedou-se na casa de Hek por seis meses e, com a ajuda de Nainoa, ensinou as técnicas de navegação celestial a Hek e a uma tripulação que ele havia reunido.
Em 1992, a Te Aurere partiu em uma viagem muito aguardada, guiada por Mau, da Nova Zelândia ao Taiti, reestabelecendo mais uma rota polinésia ancestral. Em seguida, Hek realizaria uma série de outras viagens ganhando grande notoriedade em seu país.

Em 2019 ele foi nomeado Cavaleiro da Nova Zelândia pela primeira-ministra Jacinda Ardern e faleceu três meses depois, em maio de 2019. Em seu funeral, foi creditado por salvar a “Tārai Waka” (tradição de construção e resgate da arte da construção das canoas) e por restaurar o caminho entre Aotearoa e as demais ilhas da Polinésia.
Contudo, Hek não estava inteiramente convencido de que havia conseguido isso. Em sua última entrevista, disse: “Mesmo assim, acho que tārai waka pode morrer”. Dessa forma, James Eruera, que trabalhou ao lado de Hek por nove anos e o ajudou a construir diversas canoas, teve a iniciativa de reunir artesãos do Havaí, Polinésia Francesa e Nova Zelândia através de um projeto para levar adiante a tradição da construção ancestral de canoas e levá-la à atenção do público.
O resultado desse trabalho chama-se “Waka”, uma websérie em seis capítulos que conduz o telespectador por uma viagem através do legado polinésio na arte da construção tradicional de canoas.

Reunidos para a construção de uma canoa, desde a escolha da árvore sagrada que ganhará uma nova vida, os escultores falam sobre seu ofício, como eles se conectam com as forças da natureza, o uso das ferramentas tradicionais e modernas (como a tecnologia 3D) e as habilidades necessárias para transformar a “rākau” em “waka”.
Os seis capítulos estão disponíveis on-line e podem ser conferidos abaixo. Apesar de narrados em inglês, muito do que se vê é mais “sentido” do que “ouvido”. Trata-se de um material indispensável para todos aqueles que se interessam pela cultura polinésia e sua tradição milenar na construção de canoas.