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Um dado recente do mundo corporativo me chamou atenção: segundo uma pesquisa da Korn Ferry, citada em artigo da StartSe, 86% dos líderes seniores acreditam que seus times confiam muito neles, mas, do outro lado, apenas 67% dos colaboradores dizem confiar muito em suas organizações. A pesquisa não fala sobre va’a, mas fala sobre gente. E onde existe gente reunida em torno de um propósito, existe também liderança, confiança, percepção e silêncio.
A distância entre os dois números mostra algo importante, pois muitas vezes quem lidera acredita que está sendo claro, justo e confiável, mas quem está sendo liderado pode viver outra experiência. Na empresa, esse descompasso aparece em pesquisas de clima, engajamento e performance; na canoa, no entanto, aparece de outro jeito.
Ele se manifesta no aluno que começa a faltar, na pessoa que para de responder no grupo, no remador que deixa de se envolver e na energia que vai baixando aos poucos. Naquele silêncio que parece tranquilidade, mas pode ser afastamento, percebemos que nem todo silêncio significa que está tudo bem; às vezes, significa apenas que ninguém se sente confortável para falar.
Um clube de canoa não é uma empresa, mas também é feito de relações. Tem professor, liderança, alunos novos e antigos, decisões, combinados, expectativas, frustrações e, principalmente, tem confiança sendo construída ou desgastada todos os dias. Muitas vezes, o líder do clube acha que o grupo está bem porque ninguém reclama, mas o aluno nem sempre reclama: às vezes, ele só se afasta. Falta uma aula, depois falta outra, para de entrar nas conversas, diz que está sem tempo e vai sumindo sem fazer barulho. E, quando o clube percebe, aquela presença que parecia garantida já não está mais ali.
Existe uma diferença grande entre o que o líder quis fazer e o que o grupo sentiu, provando que intenção e impacto nem sempre remam juntos. O professor muda um horário com boa intenção, mas o aluno sente falta de aviso; o líder faz uma cobrança pensando na evolução, mas alguém recebe aquilo como exposição; o clube toma uma decisão por organização, mas o grupo sente falta de conversa. O líder explica pela intenção, enquanto o grupo sente pelo impacto, e é exatamente nesse espaço que muita confiança se perde.
Talvez uma das grandes lições desse dado corporativo seja simples: confiança não pode ser presumida, ela precisa ser percebida. Para isso, é preciso criar espaço para ouvir, não só quando há problema, quando alguém reclama ou quando a crise já apareceu, mas no dia a dia. Isso se constrói em conversas simples, em perguntas honestas, em abertura para receber incômodos e em coragem para escutar aquilo que talvez não seja tão confortável. Porque, em muitos grupos, o silêncio não é ausência de problema, é apenas falta de espaço para falar.
Se no mundo corporativo, com estruturas, pesquisas e processos, ainda existe uma distância grande entre o que líderes acreditam e o que times realmente sentem, talvez valha olhar com ainda mais cuidado para os clubes, bases e comunidades esportivas.
Ambientes menores também têm silêncios grandes, e a canoa ensina isso de forma muito clara. A pergunta que fica para quem lidera um clube não seja apenas “Será que o grupo confia em mim?”, mas sim “Será que o grupo se sente seguro para me dizer quando algo não está bem?”. Porque confiança não é aquilo que o líder acredita ter, é aquilo que o grupo consegue sentir. E uma canoa raramente esvazia de uma vez; antes, ela vai ficando silenciosa.