Entre o palco e o mar: nem toda vitória cabe no pódio

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entre o palco e o mar
Equipe 50+ feminina do Canoa Para Todos durante o Aloha Spirit Caraguatatuba do ano passado: o mar não pergunta quantas medalhas você tem. Ele pergunta: “você está preparado para aprender?” Foto: Arquivo pessoal Valeria Campos Lemos

Existe uma fase no esporte em que tudo parece possível. O primeiro treino, a primeira competição, a primeira medalha, os elogios… E, de repente, a confiança pode se transformar em uma perigosa sensação de que já sabemos tudo.

No esporte, como na vida, confiança é importante. Mas humildade é indispensável. Tenho observado alguns atletas iniciantes querendo fazer tudo, competir em qualquer situação, corrigir antes de aprender, ensinar antes de ouvir. Não há nada errado em sonhar grande. O problema está em esquecer que cada pessoa tem um tempo de aprendizado e que experiência não significa saber tudo. E talvez o mar seja um dos maiores professores dessa lição.

No ano passado, em uma etapa em Caraguatatuba, enfrentamos um mar muito alto. Algumas canoas deram huli, outras tiveram o iaco quebrado e muitas equipes passaram por grandes dificuldades. Nós, da equipe 50+ feminina do Canoa Para Todos, também sentimos a força daquele mar.

Naquele dia, não tivemos pódio. Mas tivemos algo que, para mim, valeu muito: chegamos todas bem. Juntas.

Foi preciso confiar umas nas outras, ouvir, respeitar o comando, ajustar a remada e trabalhar verdadeiramente em equipe. Naquele momento, ninguém era mais importante que o grupo. E o mar nos lembrou algo que às vezes esquecemos: não importa o quanto você sabe; sempre haverá algo que a vida poderá ensinar.

O esporte também tem seu palco. É o pódio, a medalha, a fotografia, o reconhecimento, as redes sociais. E o palco pode ser maravilhoso. Ele celebra o esforço e inspira novas conquistas. Mas também pode alimentar o ego.

Quando precisamos o tempo todo mostrar que somos fortes, experientes e capazes, admitir que não sabemos pode parecer uma fraqueza. Não é. Dizer “eu não sei” é uma demonstração de maturidade.

Até o atleta experiente continua aprendendo. Aprende com outro atleta, com um treinador, com um erro, com uma condição diferente do mar e, muitas vezes, com alguém que acabou de chegar. Porque experiência não é saber tudo, é saber que sempre existe algo novo para aprender.

O que estamos construindo? Talvez essa seja a pergunta mais importante. Enquanto buscamos performance, velocidade e medalhas, que tipo de seres humanos estamos nos tornando?

Podemos ganhar uma prova e perder a humildade. Podemos ser excelentes tecnicamente e esquecer de respeitar quem está ao nosso lado. Ou podemos entender que o verdadeiro esporte também é feito de companheirismo, respeito, segurança, escuta e humanidade.

Caraguatatuba me ensinou isso, uma vez. Naquele dia, não subimos ao pódio, mas saímos do mar com uma certeza: vencemos o desafio juntas. E talvez essa seja uma das maiores vitórias que o esporte pode nos oferecer. Porque o mar não quer saber quantas medalhas você tem. Ele apenas pergunta: “Você está preparado para aprender?” E enquanto houver uma próxima remada, a resposta deve ser: “Sim, nem toda vitória cabe no pódio. Algumas vitórias acontecem quando conseguimos chegar ao outro lado juntos”.

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