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Se alguém ainda tem alguma dúvida de que o maior erro da história do SUP Race mundial foi a transição da classe oficial de pranchas de 12’6” para 14 pés, sugiro dar uma olhada em uma postagem recente feita pela ISA (International Surfing Association) em seu perfil do Instagram dedicado ao stand up paddle.
Pelo tom da publicação, ficava claro que a intenção da entidade era “comemorar” essa transição. O resultado, no entanto, foi o oposto: algo que qualquer pessoa que realmente viva o dia a dia dessa modalidade já poderia prever. A caixa de comentários virou um muro de lamentos. E não estamos falando de praticantes de fim de semana, mas de vozes de peso. Multicampeões mundiais como Connor Baxter e Candice Appleby, apenas para citar dois gigantes, fizeram coro às reclamações sobre a mudança de tamanho das pranchas.
Historicamente, a ISA sempre foi alvo de críticas por dar sinais de que trata o stand up paddle como um mero degrau, uma ferramenta política para ganhar relevância junto ao Comitê Olímpico Internacional em sua bem-sucedida cruzada para tornar o surfe um esporte olímpico. É verdade que eles também tentam emplacar o SUP nos Jogos, mas, na minha opinião, falta vontade real. Mais do que isso: falta entender o esporte que alegam representar. A desconexão com a realidade demonstrada nessa postagem “comemorativa” apenas reforça essa tese.
Para entender como chegamos a esse ponto, é preciso voltar um pouco no tempo. Desde que as competições de SUP Race começaram a ganhar tração global, houve um esforço coordenado dos maiores fabricantes mundiais de pranchas para impor as de 14 pés como o padrão oficial. Isso foi feito à revelia do que pensavam os atletas, especialmente aqueles fora do eixo Estados Unidos-Europa. A pressão da indústria foi grande, pouco a pouco, os maiores eventos internacionais, patrocinados por essas mesmas marcas, cederam. A ISA, verdade seja dita, foi a última a se render, oficializando a classe de 14 pés a partir de 2018. O tempo passou e adivinhem o que vem acontecendo desde então? O SUP Race está encolhendo.
Hoje, no Havaí, berço da modalidade, o número de competições e de praticantes diminui a cada ano. Na Califórnia, que até 2015 ostentava praticamente uma prova de alto nível por mês, o esporte simplesmente minguou. Na Ásia, especialmente na Coreia e no Japão, a esperança de que surgisse um novo e vibrante polo vai se apagando, enquanto na Austrália o cenário também é de retração.
A exceção que confirma a regra é a Europa, onde o SUP Race ainda respira, impulsionado pelo Euro Tour. Mas há um detalhe geográfico e cultural crucial aí: na Europa, viaja-se de trem para quase qualquer lugar. E é infinitamente mais fácil acomodar um trambolho de 14 pés em um vagão de trem do que no porão de um avião.
E na América do Sul? Bem, o cenário dispensa apresentações. No Brasil, além da desgastante guerra política entre as confederações (CBSUP x CBSurf/Surf Brasil) que tanto sangrou a modalidade, sobram relatos de atletas impedidos de embarcar com seus equipamentos nos aeroportos. Quando o padrão era 12’6”, já era uma missão ingrata, mas em voos menos lotados, com um pouco de conversa, você conseguia. Com 14 pés, tornou-se uma roleta russa viajar com seu equipamento.
Nas estradas, o drama se repete. Uma prancha de 12’6” cabe razoavelmente bem no rack de um carro de passeio. Já as de 14 pés extrapolam com folga os limites de balanço traseiro determinados pelo CONTRAN. Quem viaja pelas rodovias brasileiras com uma ou mais pranchas de 14 pés no teto conhece bem a adrenalina que bate ao avistar um posto da Polícia Rodoviária.
“O stand up paddle surgiu com força avassaladora no início dos anos 2000 e virou uma febre mundial inédita nos esportes aquáticos por um motivo muito simples: era acessível”
O stand up paddle surgiu com força avassaladora no início dos anos 2000 e virou uma febre mundial inédita nos esportes aquáticos por um motivo muito simples: era acessível. O que as entidades e a indústria fizeram desde então foi remar na contramão dessa essência.
As pranchas ficaram cada vez maiores, mais estreitas, mais caras e mais difíceis de equilibrar. Lembro da alegria genuína de um vizinho meu quando aprendeu a remar, lá em 2010. O cara mal sabia nadar e nunca havia se imaginado navegando com tamanha autonomia no mar. Isso só foi possível porque o equipamento da época era amigável. Ele até se animou, participou de algumas provas amadoras, mas à medida que o esporte foi se tornando cada vez mais “técnico” (o que, na prática, significa excludente), ele simplesmente desistiu e mais tarde migrou para a va’a.
Diante de tudo isso, eu me pergunto: será que um esporte que já foi tão promissor e inclusivo pode voltar a ser o que era?
Torço para que sim, mas a solução exige mais conexão com a essência desse esporte. O primeiro passo para retomar o crescimento do SUP Race é a auto-intitulada “principal entidade global do esporte” descer do pedestal, parar de olhar apenas para os próprios interesses políticos e ouvir mais os seus atletas. Será que isso vai acontecer?