Entrevista | Michelle Manu, a guerreira polinésia

Compartilhe
Michelle manu dança havaiana
Michelle Manu segura artefatos de guerra usados na Ku’ialua. Foto: James Trotter

No dia 10 de agosto, às 21h, o Instagram @hulaalohabrazil estará promovendo uma live beneficente em prol ao Projeto Acolher, apoiando a Instituição “Casa Diná”.

A live terá a participação de Michelle Manu, uma das mais respeitadas “Kumu Lua” (designação para os mestres e guardiões da restrita arte marcial ancestral havaiana conhecida como Ku’ialua, ou, simplesmente, Lua) da atualidade.

Ela também é dançarina e coreógrafa profissional de Hula (1990-2004), dança popularmente conhecida no Brasil como “dança havaiana”.

Veja também > Kala Tanaka, a ‘Moana’ da vida real

Única mulher aceita como discípula do Grande Mestre (‘Olohe) Solomon Kaihewalu em mais de 40 anos, Michelle Manu é também a única mulher, até agora, a receber a designação de “Cavaleiro Comandante” da Ordem Real de Kamehameha I, por seu trabalho contínuo na promoção, proteção e perpetuação da cultura havaiana por meio da Lua.

Na entrevista a seguir, ele fala sobre sua história, cultura polinésia, filosofia havaiana e os ensinamentos que aprendeu através da dança e da luta.

Entrevista Michelle Manu

“A dança polinésia e as artes marciais tem mais em comum do que se imagina”. Foto: Arquivo pessoal

Qual a sua etnia?

Sou de descendência polinésia, asiática e escandinava. Meu pai era havaiano, filipino, chinês e inglês. Minha mãe era norueguesa, dinamarquesa e um pouco escocesa. Sempre digo que meus ancestrais eram guerreiros marinheiros que empunhavam armas. Para mim, não é nenhuma surpresa que eu seja inclinada a fazer o que faço e seja o que sou. Por muitos anos, não entendia por que eu era diferente e tão intensa.

Quando, como e com quem você iniciou sua jornada na Hula?

Comecei minha jornada na hula aos 3 anos de idade com uma tia que eu raramente visitava. Em uma idade tão jovem, eu realmente não entendia o que estava fazendo quando imitava os movimentos. Aos 11 anos, fui aceita em um hālau hula. Minha kumu era muito rígida. Durante meus 3 anos de estudo, nunca consegui sair do chão. Pude usar minha ‘lima’ (mãos), o ‘uli’uli (instrumento feito de cabaça com penas) e o ‘ili’ili (seixos desgastados pela água).

Lembro-me de olhar para as wāhine (mulheres) mais velhas querendo ser como elas, em pé, movimentando livremente, movendo tanto a parte superior quanto a inferior do corpo com movimentos graciosos. Aos 15 anos, me mudei do sul da Califórnia e comecei a fazer uma turnê pelo centro-oeste dos Estados Unidos como artista polinésia profissional. Eventualmente, eu também era capaz de coreografar. Meu recorde foi de 11 shows em uma semana! Ainda danço Hula até hoje e ensino movimentos básicos, os quais traduzo em movimentos de ‘full-contact’ da Lua. Os movimentos da hula tornam mais fácil a aprendizagem dos movimentos da Lua para meus haumāna (alunos).

O que a chamou/despertou para a Lua?

Comecei as artes marciais aos 9 anos. Continuei a estudar enquanto viajava pelo centro-oeste dos EUA, principalmente para o condicionamento cardiovascular, porque as apresentações exigiam que eu estivesse no meu melhor desempenho. Todos nós víamos artistas que tinham uma técnica pobre, não entendiam realmente os movimentos que faziam e ficavam cada vez mais cansadas ​​à medida que a apresentação avançava. Eu não queria ser uma desses artistas, pois achava que isso era extremamente desrespeitoso com a cultura havaiana. Isso é especialmente verdadeiro no centro-oeste, onde o contato com a cultura Polinésia é muito menor do que em outras partes dos EUA. Eu precisava ter certeza de que estava representando adequadamente em todos os momentos, mesmo se estivéssemos no palco.

Quando voltei para o sul da Califórnia vindo do centro-oeste, eu sabia que não queria mais ser a artista principal no centro do palco. Enquanto eu curtia essa fase, minha ‘mulher interior’ me chamou fortemente para retornar às artes marciais de full contact. Eu encontrei meu ‘Ōlohe (mestre de Lua) nas ‘páginas amarelas’, porque isso foi antes da existência da Internet (você pode imaginar isso?!). Não acreditava que seria a Lua, mas eu torcia para isso. Quando finalmente fui convidada para assistir uma aula, percebi que nessa arte seria muito difícil de ser aceita como aluna. Através do meu duro treinamento, ‘Ōlohe Solomon Kaihewalu foi capaz de me remodelar em todos os sentidos. Ele literalmente apagou meu treinamento anterior e reprogramou meu corpo para se mover apenas como a Lua. Meu treinamento, do qual eu necessitava desesperadamente, se espalhou por todas as áreas da minha vida e me tornou a mulher e líder guerreira que sou hoje. Tive a bênção de passar mais de vinte anos com meu professor antes de ele deixar Haumea (Mãe Terra), há dois anos neste mês.

Eu não sabia que acabaria sendo a única mulher kumu na linhagem do Halau Lua Kaihewalu (por enquanto). Eu sou muito abençoada por ser a detentora e guardiã deste sagrado conhecimento e treinamento, e todos sabem que levo minha kuleana (responsabilidade) muito a sério. É o propósito da minha vida perpetuar a cultura havaiana especificamente através da Lua e mostrar os movimentos poderosos, precisos e devastadores da Lua através do meu corpo feminino.

Isso exemplifica o equilíbrio entre Kū e Hina* que está ausente da cultura desde a chegada dos visitantes (colonizadores). Vou continuar a ensinar até meu último suspiro, quando haverá mais wahine criadas para ensinar e liderar. A Lua me chama todos os dias. Eu apenas tenho que ser obediente ao chamado, não importa o que aconteça.

* (Obs. na mitologia havaiana, Ku, é um antigo rei da guerra e Hina, sua esposa; juntos representam o dualismo entre guerra e paz’)

Michelle manu dança havaiana
Por ser uma luta ancestral, a Ku’ialua se utiliza de artefatos elementares á cultura polinésia, como os remos de canoa. Foto: James Trotter

Nesse longo tempo envolvido com a Lua, qual foi o aprendizado mais intenso que você já teve?

Ser a única mulher no Hālau LUA O Kaihewalu era intenso por si só. Eu realmente não reconheci ou entendi isso até muito mais tarde em meu treinamento. Apenas continuei comparecendo e sabendo que tinha o direito de estar lá, mas sabia que precisava continuar conquistando esse direito a cada movimento. Quando cheguei ao meu ‘Ōlohe, ele não ensinava mulheres há quase vinte anos. Por que ele concordou em me ensinar, eu nunca vou entender.

O mais intenso não era quando trabalhávamos intensamente as figuras da hula ou o shadowbox (quando o lutador dá socos no ar como se houvesse oponente). Os momentos mais intensos foram quando eu estava cara-a-cara com alguns dos meus irmãos mais brutais e formidáveis, que como eu, tinham que atingir as expectativas do ‘Ōlohe’.

Na vida, geralmente não aprendemos com lições bonitas ou fáceis. Só aprendemos realmente o que somos ou poderíamos fazer quando somos confrontados com adversidades e desafios que não se pode evitar. Essas lições não tão bonitas não foram apenas os entraves do treinamento, mas lesões reais, como o lado direito da minha caixa torácica sendo quebrada, um quadril fraturado, algumas concussões, um hematoma na parte inferior da minha perna esquerda, dedos quebrados, perda da consciência e muito mais. Esses foram os desafios mais intensos e até hoje nunca perdi um treino.

Michelle manu dança havaiana
Ao lado de Kareem Abdul-Jabbar, durante cerimônia da National Arts & Entertainment Journalism Awards, em Los Angeles (EUA). Foto: Reprodução

A Lua ou outra filosofia havaiana influenciou você a estudar metafísica (confirme onde você fez isso) e isso a levou a uma compreensão mais profunda de Lua, Hula, Wa’a e assim por diante?

A cultura de nosso hālau foi uma das mais mortais. ‘Ōlohe nos criou para sermos soldados. Parecíamos muito limpos e em uníssono como um grupo. Um exemplo de esquadrão de extermínio – organizado, que segue na direção correta, conhece sua atribuição e missão, sem piedade e termina-a.

Minha jornada de transformação na metafísica começou em 2004 com o falecido metafísico Eric Burlingame. Fui encaminhada e realmente pensei que as coisas metafísicas eram um pouco malucas. Eu carecia de consciência e compreensão. Hoje, eu nunca poderia voltar a ser aquela jovem não evoluída. Se a Lua é uma prática cultural, uma arte guerreira, temos que ter controle sobre nossas emoções e reações. Isso começa com a compreensão de nós mesmos nos níveis mais profundos (ou “meta”) do ser.

Quando nos tornamos fisicamente conhecedores proficientes dos movimentos da Lua, temos kuleana (uma responsabilidade) de não fazer mau uso do que sabemos. Se uma situação ocorrer e não pudermos nos controlar, isso seria abusar de nossa kuleana, desonrando assim todos aqueles que vieram antes de nós (kūpuna, ancestrais). Na época dos Maoli (originários havaianos), se alguém quisesse machucar outra pessoa, psíquica ou fisicamente, o agressor era condenado à morte. Isso porque, como sociedade, sabíamos que o dano iria se espalhar pelas gerações futuras, perturbando tudo o que era considerado sagrado e kapu (antigo código de conduta havaiana).

Nā Koa, Inc. é uma organização sem fins lucrativos que foi formada com o único propósito de proteger, promover e perpetuar a Arte Guerreira Havaiana da Lua. Hoje, o estudo da metafísica é imperativo e inegociável em meu sistema, Nā Koa (Os Guerreiros). Também incluída neste sistema está a Lualomi (massagem do guerreiro). Existe uma diferença entre um soldado e um guerreiro. Criar guerreiros modernos significa que a metafísica deve ser usada para examinar as partes mais profundas de nós mesmos, para não abusarmos da Lua – e podermos servir melhor a nós mesmos e nossas comunidades – ou seja, o mundo em um sentido de vibração energética.

O Lualomi é imprescindível para que um guerreiro possa ajudar a si mesmo, seus companheiros guerreiros e seus entes queridos.

Michelle manu dança havaiana
Michelle em frente à estátua do rei Kamehameha “O Grande”. Foto: Arquivo pessoal

Na época de seus ancestrais, como os princípios de Lua costumavam se manifestar? E hoje em dia, isso pode ser visto no cotidiano da sociedade havaiana?

Os ancestrais manifestaram a prática da Lua com grande empenho. Os guerreiros tinham um propósito e viviam sua kuleana (responsabilidade) com integridade. Isso mudou muito com a chegada dos visitantes e com a missão do rei Kamehameha de “unir” o povo e as ilhas. Há muito o que discutir sobre isso, incluindo a Rainha Ka’ahumanu e seu papel após a morte de Kamehameha. Fica para outro momento. Hoje, a Lua ainda está muito presa àqueles que são aceitos para estudar o caminho do guerreiro. Alguns ainda acreditam que aqueles que não têm sangue havaiano e as mulheres, em algumas pā (esolas), não deveriam ser aceitas para estudar a Lua. Os praticantes da Lua estão muito escondidos dentro da comunidade. Eles sabem ‘de’ ou se conhecem, mas a Lua não é uma arte guerreira que você verá em um shopping aberto ao público.

Depois de tantos anos praticando e ensinando Lua, você pode dizer que os lutadores da Lua a têm como filosofia, como notamos que a wa’a ou o surfe são filosofias de vida antes de serem esportes?

A Lua é absolutamente uma arte cultural, assim como o surfe, o remo e a canoagem. As filosofias, a conexão com os elementos da natureza e a intenção do praticante tornaram a arte cultural íntegra e profunda. Embora a Lua deva ser uma filosofia, geralmente não está fora da ilha no continente.

No continente, a Lua moderna tem outros praticantes de artes marciais tendo a Lua como arte secundária. Tenho testemunhado certos praticantes tentando aplicar filosofias, classificações, títulos e operações marciais asiáticas ao grupo da Lua. Aqui, não há espaço para isso e espero que nunca seja considerado aceitável. Lua é Lua. É uma prática cultural, não uma arte marcial.

Qual a conexão da Lua com outras filosofias havaianas, como o surfe e a hula?

Todas as formas e maneiras de ser havaiano foram feitas com muito cuidado e consideração. Este ato de ser, estar numa respeitosa kūleana (responsabilidade) é o que torna cada pensamento, ato e ação sagrados.

Isso era evidente pela maneira como se esculpia a wa’a e a forma como reverenciava-se a natureza para guiar e navegar na wa’a – a hoku (estrelas), o makani (vento), a moana (oceano) e o holoholona (animais).

Da mesma forma, era evidente pela maneira como se começava e terminava a hula (dança) lendo reverenciando a natureza para guiar seus movimentos e também é válido para a confecção de ho’okupu (oferendas) e adornos que uma dançarina usaria.

Assim sendo, da mesma maneira como se começava e terminava Lua (arte guerreira) lendo reverenciando a natureza para guiar os movimentos guerreiros, e para a confecção de ho’okupu (oferendas) e mea kaua (armamento), semelhante ao entalhe da wa’a (canoa) e papa he’e nalu (prancha de surfe), ou quando se começava e terminava a Lualomi (massagem do guerreiro) ou Lomilomi (massagem) e para a preparação de ho’okupu (oferendas) antes e depois de um tratamento de cura.

Os Maoli (havaianos originais) eram muito ligados à natureza e aos espíritos que os guiavam e enriqueciam. A āina (terra) está viva, nos tempos dos Maoli e hoje. Precisamos apenas nos silenciar, ouvir, observar, reconhecer e obedecer às orientações. Existem guardiões terrestres, marítimos e aéreos que procuram comunicar-se com aqueles que estão dispostos a fazê-lo na forma física. Na minha experiência pessoal, Lua me penetra e me atrai, exigindo todo o meu ser. Não há outra maneira para mim a não ser comungar e seguir as fortes ‘lideranças’. Eu nunca estou sozinha.

Serviço | Live Beneficente com Michelle Manu

Quando: terça-feira, 10 de agosto.

Horário: 21 horas

Onde: Instagram @hulaalohabrazil

Obs.: Live será transmitida apenas para colaboradores. Toda a verba recebida será revertida para o Projeto Acolher, apoiando a Instituição “Casa Diná”. Para mais informações, mandar um direct para @hulaalohabrazil.

Não perca nada! Clique aqui para receber notícias do universo dos esportes de água no seu WhatsApp

Compartilhe