Muito além do laço rosa

Compartilhe
Remada Rosa Rio
Vestir rosa, remar junto e espalhar a mensagem da prevenção são formas simples de lembrar que o diagnóstico precoce salva vidas. Foto: Mauricio Noronha

Outubro ficou marcado no mundo inteiro pela cor rosa. Mas, por trás da iluminação de monumentos, das campanhas e dos laços cor-de-rosa, existe uma história de mobilização social, pesquisa científica e, cada vez mais, de mulheres que encontraram no esporte uma maneira de recuperar força, autoestima, autonomia e vínculos depois do câncer de mama.

O Outubro Rosa nasceu como movimento de conscientização nos Estados Unidos, ganhou força na década de 1990 e se espalhou internacionalmente. A primeira iniciativa registrada no Brasil aconteceu em 2 de outubro de 2002, quando o Obelisco do Ibirapuera, em São Paulo, foi iluminado de rosa. A campanha ganhou grande dimensão nacional a partir de 2008 e foi oficialmente instituída no país pela Lei nº 13.733, de 2018.

Hoje, o Outubro Rosa vai muito além de falar sobre diagnóstico precoce. É também uma oportunidade para discutir a vida depois do tratamento: a recuperação física, a saúde mental, a autoestima, a atividade física e a reinserção social.

É justamente nesse ponto que uma história iniciada no Canadá, nos anos 1990, se conecta com as águas brasileiras.

A experiência que mudou a relação entre câncer de mama e exercício

Dr. Donald C. McKenzie
Dr. Donald C. McKenzie recebe homenagem da cofundadora da equipe de Dragon Boat Indy SurviveOars, Kathy Martin Harrison, por suas pesquisas no campo da medicina e esporte. Foto: Reprodução

Em 1995, o médico canadense Dr. Donald C. McKenzie, especialista em medicina esportiva e ligado à University of British Columbia, em Vancouver, iniciou uma experiência que desafiaria uma ideia bastante difundida naquela época: a de que mulheres que haviam passado por cirurgia de câncer de mama, especialmente aquelas que realizaram a mastectomia, deveriam evitar exercícios físicos.

Geralmente os médicos fazem à retirada de linfonodos axilares durante a mastectomia para evitar que o câncer se espalhe por lá. Os linfonodos são filtros, eles ficam no meio do caminho dos vasos linfáticos, como estações por onde a linfa obrigatoriamente passa. Quando o cirurgião retira os gânglios, também corta os vasos que chegam e saem deles. A linfa do braço perde parte das rotas de saída.

Linfedema é um inchaço crônico causado pelo acúmulo de linfa, um líquido rico em proteínas nos tecidos. Acontece quando o sistema linfático não consegue drenar esse líquido direito.

McKenzie decidiu investigar justamente o que até então era visto como um possível risco. Ele criou uma equipe de 24 mulheres sobreviventes do câncer de mama, com idades entre 31 e 62 anos, e escolheu o Dragon Boat como modalidade de treinamento. A equipe recebeu o nome de Abreast in a Boat.

Em seu artigo publicado no Canadian Medical Association Journal em 1998, McKenzie relatou que, durante aquela experiência, não surgiram novos casos de linfedema entre as participantes. Algumas mulheres também relataram o desaparecimento dos linfedemas e tambem melhora na amplitude de movimento dos braços.

A experiência acabou produzindo um efeito que talvez McKenzie não imaginasse. As 24 mulheres não ficaram conhecidas apenas como participantes de uma pesquisa. Elas deram origem a um movimento internacional.

De Vancouver para o mundo

A experiência canadense rapidamente inspirou outras mulheres. A International Breast Cancer Paddlers Commission (IBCPC) foi criada posteriormente para estimular a formação de equipes de Dragon Boat para mulheres que passaram pelo câncer de mama, dentro de uma proposta de participação, inclusão e vida ativa.

Segundo a própria IBCPC, atualmente existem mais de 400 equipes associadas em mais de 40 países, reunindo aproximadamente 20 mil remadoras.

No Canadá, país onde tudo começou, existem equipes como Abreast in a Boat, de Vancouver, além de Rowbust, BreastStrokes, Pink Sensations, Survivors Abreast, Warriors of Hope e muitas outras. Nos Estados Unidos também existem grupos específicos, como o GoPink!DC, em Washington, formado por sobreviventes de câncer de mama e apoiadoras. O movimento também chegou à Austrália, Nova Zelândia, Europa, Ásia, América Latina e Oriente Médio.

Assim, o barco passou a representar muito mais do que uma embarcação. Ele se tornou um lugar onde mulheres com histórias semelhantes entram juntas, encontram outras mulheres que passaram por experiências parecidas e descobrem que existe vida e vida ativa depois do câncer.

E a canoa Va’a?

Embora a pesquisa científica específica sobre Va’a/OC6 e sobreviventes de câncer de mama seja muito menor do que a literatura existente sobre Dragon Boat, a canoa polinésia também vem sendo utilizada em projetos brasileiros.

Um exemplo brasileiro aconteceu em Fortaleza, onde um projeto de Remada Rosa utilizou canoas polinésias. As organizadoras explicaram que, devido às condições do mar, optaram por adaptar a prática para a canoa Va’a. Também existem experiências com canoas polinésias em outros grupos brasileiros. A própria Canomama utilizou canoas polinésias, caiaques e standup paddle antes de conseguir seu Dragon Boat.

A lógica fisiológica geral é semelhante à de outras atividades físicas: fortalecimento, condicionamento cardiovascular, mobilidade, coordenação e, principalmente, a possibilidade de praticar esporte em grupo.

A chegada do Dragon Boat ao Brasil: Cleusa Alonso e a Canomama

remada rosa rio
Fundadora do Canomama, Cleusa Alonso passou pela cirurgia de mastectomia, teve uma recuperação muito difícil e viu no esporte a oportunidade de recomeçar. Foto: Reprodução canomama.com.br

No Brasil, o Dragon Boat chegou pelas mãos de Cleusa Alonso. Ela também passou pela cirurgia de mastectomia, teve uma recuperação muito difícil e viu no esporte a oportunidade de recomeçar.

Segundo a história publicada pela própria associação, um grupo inicial de 12 sobreviventes participou da construção do projeto, que foi oficialmente lançado em 8 de março de 2016, Dia Internacional da Mulher. Em setembro de 2016, Cleusa anunciou a primeira equipe rosa do país: a Canomama, da cidade de Brasília (DF)  um mês antes de realizar o 1º Festival de Dragon Boat para Sobreviventes do Câncer de Mama, na cidade de Santos (SP), feito em águas brasileiras com a presença do próprio Dr. Don McKenzie.

Pela dedicação e determinação em trazer a atividade ao Brasil e trabalhar na formação de equipes, Cleusa Alonso foi convidada pela International Breast Cancer Paddlers Commission (IBCPC) para ser a representante do Brasil.

Atualmente, Cleusa Alonso faz parte do comitê de outreach do Dr. Don McKenzie e é diretora da Canoagem Rosa da Confederação Brasileira de Canoagem. Em 2019, teve o apoio da atleta Alessandra Rodrigues, diretora executiva do Dragon Boat da Confederação de Canoagem do Brasil.

A Canomama trabalha especificamente com mulheres sobreviventes do câncer de mama e utiliza o Dragon Boat como ferramenta de atividade física, convivência e bem-estar. Atualmente, a associação mantém sua base no Clube ASCADE, em Brasília, onde realiza seus treinamentos.

E a iniciativa continua crescendo. Em 2026, a Canomama lançou o projeto Elas Navegam, voltado à formação e qualificação de mulheres sobreviventes do câncer de mama por meio da canoagem Dragon Boat, com previsão de atendimento direto a 60 mulheres em situação de vulnerabilidade social no Distrito Federal.

A Raia da USP e o programa REMAMA

Outro polo fundamental está em São Paulo. Na Raia Olímpica da USP, funciona o REMAMA, programa criado em 2013 pelo Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (ICESP), em parceria com estruturas da Universidade de São Paulo.

O programa foi criado para mulheres que passaram pelo tratamento do câncer de mama e utiliza o Dragon Boat como parte da reabilitação física e psicossocial. A experiência já ultrapassou uma década. Em 2025, o ICESP informou que o programa já havia beneficiado mais de 100 mulheres e reunia dezenas de participantes em seus treinamentos na Raia Olímpica da USP.

A USP também promoveu festivais específicos para as Remadoras Rosas, reunindo equipes brasileiras para atividades em Dragon Boat e canoas OC6. É uma demonstração interessante de como as duas culturas de canoagem podem dialogar: a embarcação chinesa e a canoa polinésia.

Quantas equipes existem no Brasil?

O movimento brasileiro já alcançou praticamente todas as regiões do país. A relação atual publicada pela IBCPC inclui equipes como:

  • Canomama — Brasília/DF
  • Remama Dragão Rosa — São Paulo/SP
  • UmaUma — São Paulo/SP
  • Força Rosa Brasil — Itu/SP
  • Kaora — Santos/SP
  • Nina Rosa — Santos/SP
  • Canoha Dragon Team — Curitiba/PR
  • Flor de Lótus — Foz do Iguaçu/PR
  • Meninas do Lago — Foz do Iguaçu/PR
  • Rosa dos Ventos — Londrina/PR
  • Lua Rosa — Fortaleza/CE
  • Mamacaru — Paulo Afonso/BA
  • Girassol Rosa — Maceió/AL
  • Lisa Flor — Maceió/AL
  • Mama Rosa — Maceió/AL
  • SobreViver — Maceió/AL
  • Mulheres de Peito — Aracaju/SE
  • Quartzo Rosa — Recife/PE
  • Remo do Peito — Natal/RN
  • Reamar — Natal/RN
  • Fênix Potiguaras — Natal/RN
  • Maria Bonita Amazônia — Belém/PA
  • Awa’Pé Dragon Boat — Porto Alegre/RS
  • Tchê Rosa — Lajeado/RS
  • Mulheres de Peito — Piumhi/MG
  • Panapana Dragon Boat — equipe registrada pela IBCPC

A lista da IBCPC é dinâmica e pode sofrer alterações conforme novas equipes são criadas, nomes são modificados ou grupos passam a integrar a organização. Além dessas equipes, existem projetos brasileiros de canoagem voltados às mulheres que passaram pelo câncer de mama que não necessariamente aparecem com a mesma nomenclatura ou estrutura institucional.

Bahia criou uma versão brasileira: o Carranca Boat

remada rosa rio
Carranca Boat. Foto: Antônio Galdino

Um dos capítulos mais interessantes dessa história aconteceu no sertão da Bahia. O Dragon Boat chegou a Paulo Afonso através do italiano Cesare Decarli, que levou a modalidade para a região. Como o barco tradicional chinês traz a cabeça de um dragão, Decarli decidiu adaptar a identidade da embarcação à cultura do Rio São Francisco.

Nasceu assim o Carranca Boat. A carranca é uma figura tradicional das embarcações do São Francisco e historicamente está associada à proteção. Na versão baiana, ela substitui o dragão na proa da embarcação. A modalidade manteve a essência coletiva do Dragon Boat: aproximadamente 20 remadores, um timoneiro e um ritmista. E ganhou uma característica muito brasileira: o barco passou a representar a união entre uma tradição esportiva chinesa milenar e uma manifestação cultural profundamente ligada ao Rio São Francisco.

Mamacaru: o encontro entre o Carranca Boat e o Outubro Rosa

Em Paulo Afonso surgiu também a equipe Mamacaru, formada por mulheres que passaram pelo câncer de mama. O nome faz referência ao mandacaru, planta típica da Caatinga e símbolo de resistência.

Em 2022, o Dique do Tororó, em Salvador, recebeu o Festival Carranca Boat de Prevenção ao Câncer de Mama, junto com a Copa Brasil de Dragon Boat. O evento reuniu esporte e serviços de saúde, incluindo mamografias, orientação nutricional e outras atividades.

Em 2025, uma reportagem da TV Bahia voltou a mostrar o Carranca Boat no Rio São Francisco e o trabalho desenvolvido pelo grupo Mamacaru com mulheres que tiveram câncer de mama.

A experiência baiana mostra que a história iniciada em Vancouver não precisa ser reproduzida exatamente da mesma maneira em todos os lugares. Ela pode ganhar identidade local. No Canadá, o dragão. No sertão brasileiro, a carranca. Em Brasília, o Lago Paranoá. Em São Paulo, a Raia da USP. No Ceará, a adaptação para a canoa polinésia. O princípio continua sendo o mesmo: remar juntas.

O Outubro Rosa em Santos

Entre as iniciativas que dão cor ao Outubro Rosa no litoral paulista, destaca-se o Festival Brasileiro Feminino Ka.Ora, dedicado à Canoa Va’a, que chega à sua 9ª edição no dia 10 de outubro, na praia em frente à Escola Estadual Escolástica Rosa, em Santos. O evento, exclusivamente feminino, é ligado ao Projeto Ka.Ora, criado por Fábio Paiva, fundador da ABRACHA. Há dez anos o projeto usa a Canoa Polinésia como ferramenta terapêutica na reabilitação física, emocional e social de mulheres diagnosticadas com câncer de mama. De forma gratuita, ele atende mais de 110 mulheres da Baixada Santista, em tratamento ou em remissão, com o apoio de médicos, fisioterapeutas, psicólogos, nutricionistas e educadores físicos, e combina a remada no mar com yoga, dança e música. No festival, equipes da categoria Wahine disputam uma prova de 4 km, enquanto as alunas do projeto remam um percurso de 400 m. É uma celebração da presença feminina no esporte e uma homenagem a quem enfrenta ou já enfrentou a doença. “Para mim, o Projeto Ka.Ora se tornou uma missão”, resume Fábio Paiva.

Outubro Rosa também é sobre depois do câncer

Talvez essa seja uma das mensagens mais importantes trazidas pelo movimento das Remadoras Rosa. Durante muitos anos, a comunicação sobre o câncer de mama ficou concentrada em prevenção, diagnóstico, cirurgia, quimioterapia e radioterapia. Tudo isso continua sendo fundamental. Mas existe também o depois.

Existe a mulher que termina o tratamento e precisa reaprender a confiar no próprio corpo. Existe a mulher que perdeu força. A mulher que tem medo de movimentar o braço. A mulher que enfrenta alterações na imagem corporal. A mulher que sente ansiedade. A mulher que deixou de praticar atividades que gostava.

E existe a mulher que entra em um barco pela primeira vez. Ela encontra outras mulheres. O barco começa a se movimentar. O tambor marca o ritmo. Uma remada. Outra remada. Todas juntas. E aquilo que poderia ser apenas exercício físico transforma-se também em convivência, pertencimento e reconstrução de uma identidade que não é mais definida exclusivamente pela doença.

As pesquisas mais recentes reforçam justamente essa dimensão: além dos ganhos físicos, o Dragon Boat pode favorecer apoio social, saúde mental, autoestima, qualidade de vida e crescimento pós-traumático.

O verdadeiro significado de “remar juntas”

O que começou com 24 mulheres em Vancouver transformou-se em uma rede internacional. Hoje, existem centenas de equipes. No Brasil, mulheres remam em Brasília, São Paulo, Foz do Iguaçu, Porto Alegre, Fortaleza, Salvador, Paulo Afonso, Maceió, Natal, Recife, Londrina, Santos, Itu e em muitas outras cidades.

Algumas estão em Dragon Boats. Outras utilizam canoas polinésias. Algumas competem. Outras simplesmente querem voltar a praticar atividade física. Mas existe uma ideia que atravessa todas essas experiências: ninguém precisa remar sozinha.

O Outubro Rosa pode ser lembrado pela cor, pelo laço, pela iluminação dos monumentos e pelas campanhas de prevenção. Mas talvez uma das imagens mais fortes desse movimento esteja sobre a água. Vinte mulheres sentadas lado a lado. Um tambor marcando o ritmo. Vinte remos entrando na água quase simultaneamente. E um barco inteiro avançando porque cada uma depende da outra.

É uma imagem poderosa para qualquer campanha de conscientização. Porque depois do câncer de mama não existe apenas a palavra “sobrevivência”. Existe também vida. E, para milhares de mulheres no mundo, essa vida está sendo construída  uma remada de cada vez.

Outubro Rosa no Rio de Janeiro

remada rosa rio de janeiro
Este ano, a Remada Rosa Rio chega à sua quinta edição consecutiva, no sábado, 31 de outubro, na Praia da Urca, no Rio de Janeiro. Foto: Mauricio Noronha. Foto: Mauricio Noronha

Este ano acontecerá pelo quinto ano consecutivo a Remada Rosa Rio, que acontece no sábado, 31 de outubro, na Praia da Urca, no Rio de Janeiro. Todos os clubes de canoa estão convidados a se juntar a nós nessa celebração. O evento começa às 7h com o nosso café da manhã comunitário, e para que a mesa fique completa pedimos que cada clube leve algo para compartilhar com todos antes da remada. Das 8h às 9h, o evento é apresentado junto com as convidadas. Às 9h acontecem o sorteio de brindes e o tradicional grande abraço, momento simbólico de união e apoio a todas as mulheres que enfrentam ou já enfrentaram o câncer de mama. Às 9h30, as canoas vão para o mar na remada que dá nome ao evento.

Como em todos os anos, a camisa oficial é parte importante dessa corrente de solidariedade. Ela custa R$ 75,00, vem nos tamanhos do PP ao XG e tem tiragem limitada a 150 unidades. Para garantir a sua, basta acessar linktr.ee/RemadaRosa e preencher o formulário de inscrição escolhendo o tamanho. Depois, é só fazer o pagamento via Pix do clube e enviar o comprovante pelo próprio link.

Vestir rosa, remar junto e espalhar a mensagem da prevenção são formas simples de lembrar que o diagnóstico precoce salva vidas. Venha com a família, os amigos e o seu clube e ajude a encher a Urca de rosa neste Outubro Rosa.

Observação de saúde: o texto trata a canoagem como atividade física complementar e de reabilitação, não como tratamento do câncer. A liberação médica e a orientação de profissionais familiarizados com reabilitação oncológica são especialmente importantes para quem está em tratamento, tem linfedema ou possui outras limitações clínicas.

Não perca nada! Clique AQUI para receber notícias do universo dos esportes de água no seu WhatsApp

Compartilhe