Quando a competição termina, o que fica?

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canoa competição
Seis pás, um ritmo, um só propósito. Dentro da canoa a gente aprende que ninguém chega sozinho. E fora dela, a gente escolhe continuar junto. Foto: Arquivo pessoal Pierre Schorcht

Pode parecer preciosismo dar tanta importância a uma fotografia. Afinal, é só uma foto, certo? Mas será que é só isso? Depois de uma prova, existe aquele momento em que a adrenalina começa a baixar, as canoas são recolhidas e as equipes aguardam a organização divulgar os resultados e chamar os atletas para o pódio. Muitas vezes ainda nem sabemos a colocação quando cruzamos a linha de chegada. E é justamente nesse intervalo, entre o fim da prova e a celebração do resultado, que algumas escolhas começam a dizer muito sobre o nosso entendimento de equipe. Foi pensando nisso que comecei a refletir sobre o que significa realmente representar um clube. Porque talvez a prova termine na linha de chegada, mas a representação não necessariamente termina ali.

Ninguém é obrigado a permanecer depois de uma prova. Cada um tem sua vida, seus compromissos, sua família e seu trabalho. Quando existe uma necessidade, obviamente temos que respeitar. Não é disso que estou falando. Estou falando daquele momento em que podemos estar juntos, mas simplesmente escolhemos não estar. Pode parecer uma coisa pequena. Talvez para alguns realmente seja. Mas quem vive o esporte coletivo sabe que algumas coisas têm um peso diferente. E, às vezes, é justamente nos pequenos gestos que percebemos o quanto valorizamos aquilo que estamos construindo juntos.

Quando colocamos o nome de um clube na nossa canoa, não estamos levando apenas o nosso nome para a água. Estamos levando também o nome de quem treinou conosco, de quem ajudou na preparação e de quem ficou torcendo. Tem gente que muitas vezes nem aparece na foto, mas fez parte daquela conquista. Por isso, representar um clube é um pouco maior do que simplesmente vestir uma camisa. É assumir, ainda que naquele momento, que fazemos parte de alguma coisa. E isso vale para a largada, para os quilômetros difíceis, para a chegada e também para os momentos que vêm depois dela. Porque resultado nenhum é construído por uma única pessoa. Muito menos no Va’a.

A gente aprende isso dentro da canoa de uma maneira muito simples. Ninguém faz uma OC6 andar sozinho. A pá precisa entrar no mesmo tempo, o corpo precisa acompanhar e cada remador precisa entender que existe alguém ao seu lado. Se um pensa apenas nele, a canoa sente. Se outro perde a conexão, todos percebem. É justamente essa conexão que transforma seis pessoas em uma equipe. E talvez seja interessante levar esse aprendizado também para fora da água. Não como obrigação. Mas como consciência de que o coletivo continua existindo mesmo depois que a remada termina.

Por isso, para mim, a fotografia oficial tem um significado diferente. Não é sobre aparecer. Não é sobre cumprir um protocolo porque alguém mandou. É sobre estar junto naquele momento. A organização está registrando uma conquista e, naquela imagem, está também registrando quem estava ali representando aquela equipe. Pode parecer pouca coisa, mas são esses pequenos registros que acabam contando a história de um clube. Daqui a alguns anos talvez ninguém lembre exatamente como estava o mar naquele dia. Mas aquela fotografia continuará dizendo: nós estivemos aqui.

Também não acho que exista uma regra para medir pertencimento. Cada pessoa sente o esporte de uma maneira. Alguns vivem a competição com intensidade enorme. Outros encaram como mais uma experiência. E tudo bem. O que não podemos esquecer é que, quando existe um coletivo envolvido, nossas escolhas acabam refletindo um pouco sobre ele. Não necessariamente porque alguém está julgando. Mas porque as atitudes falam. Às vezes até mais do que aquilo que pretendíamos dizer.

Talvez seja por isso que determinadas situações incomodem mais do que deveriam. Não necessariamente pelo fato em si, mas pelo significado que damos a ele. Quando dividimos quilômetros, cansaço, pressão, expectativa e alegria, naturalmente criamos uma expectativa de reciprocidade. Esperamos que, depois de tudo, ainda exista vontade de estar junto por mais alguns minutos. Não por obrigação. Não porque alguém esteja cobrando. Mas porque aquele momento também pertence a todos que fizeram parte da caminhada. E talvez seja aí que esteja a verdadeira diferença entre simplesmente participar e realmente pertencer.

No final, a prova acaba. O cronômetro para, a medalha vai para a mochila e cada um segue sua vida. Mas talvez seja justamente quando não existe mais nada para ganhar que descobrimos o quanto valorizamos uma equipe. Ficar para uma fotografia pode parecer apenas um detalhe. Para outro, pode representar respeito, gratidão e pertencimento. Não cabe a mim dizer o que cada pessoa deve sentir. Mas, para mim, representar um clube é também entender que algumas conquistas são maiores do que o indivíduo. A foto dura alguns segundos. A história que ela registra pode durar muito mais.

Imua! 

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