
Remada Setembro Verde busca sensibilizar cariocas para a doação de órgãos
Remada Setembro Verde é um evento com a importante missão de conscientizar as pessoas para a doação de órgãos

Quem rema sabe. Todo dia em que colocamos a canoa na água, saímos sem saber exatamente o que o mar preparou para nós. Tem dia de mar liso, daqueles que parecem um espelho. Tem dia em que o vento resolve testar nossa técnica e nossa paciência. Tem o nascer do sol, as tartarugas que cruzam nosso caminho, os golfinhos que aparecem de surpresa… Mas, de vez em quando, a natureza resolve nos presentear de um jeito que palavras e imagens não conseguem explicar. Foi exatamente isso que aconteceu nos últimos dias, quando uma baleia escolheu a Baía de Guanabara para dar um verdadeiro espetáculo. Para quem vive o Va’a, é um daqueles momentos que ficam guardados para sempre na memória.
Bastou a notícia se espalhar para que remadores de diversos clubes se mobilizassem. Grupos organizaram remadas, alteraram horários de treino e cruzaram a baía com um único objetivo: ter a oportunidade de contemplar aquele gigante dos mares. E convenhamos… quem não faria o mesmo? Não era apenas a chance de fazer uma boa foto ou gravar um vídeo para as redes sociais. Era a oportunidade de viver uma experiência que muitos jamais imaginaram presenciar tão de perto. O Va’a nos proporciona uma conexão única com o oceano, e encontros como esse nos lembram exatamente por que escolhemos remar.
Mas, voltando da remada, fiquei matutando sobre algumas imagens que também circularam pelas redes sociais. Em meio à emoção, vimos canoas e outras embarcações chegando muito próximas da baleia. É fácil entender o entusiasmo de quem estava ali, mas precisamos lembrar que estamos falando de um animal selvagem, extremamente forte e que está em seu habitat natural. Um simples movimento de cauda ou uma mudança brusca de direção pode colocar pessoas em risco, além de causar estresse ao próprio animal. Admirar é um privilégio. Respeitar a distância é uma obrigação.
Outro detalhe que merece nossa atenção foi a ausência do colete salva-vidas em algumas embarcações. Canoas com excesso de remadores. Quem rema com frequência sabe que experiência não elimina riscos. O mar muda rapidamente, o vento pode aumentar sem aviso e situações inesperadas fazem parte da navegação. O colete não existe porque esperamos um acidente; ele existe para que um imprevisto não se transforme em tragédia. Segurança nunca deveria ser encarada como excesso de cuidado, mas como respeito à própria vida, à equipe e às famílias que esperam nosso retorno em casa.
O Va’a sempre foi muito mais do que remar rápido. É um esporte construído sobre valores como respeito, disciplina, união e responsabilidade. Esses princípios não aparecem apenas durante uma competição; eles também estão presentes na forma como cuidamos uns dos outros e na maneira como nos relacionamos com o mar. Quando um clube incentiva boas práticas de segurança, orienta seus alunos e respeita a vida marinha, ele está contribuindo para muito mais do que a formação de bons atletas. Está ajudando a fortalecer toda a comunidade do Va’a. Afinal, quando um clube respeita as regras, todos os outros ganham. Quem vence é o esporte.
Que a passagem dessa baleia pela Baía de Guanabara deixe muito mais do que fotos incríveis e vídeos emocionantes. Que ela desperte em cada remador o sentimento de gratidão por poder viver momentos tão especiais e, ao mesmo tempo, a consciência de que somos apenas visitantes nesse imenso cenário chamado oceano. O verdadeiro privilégio não foi chegar perto da baleia. Foi ter a oportunidade de vê-la livre, saudável e seguindo seu caminho. Que possamos continuar remando, admirando e preservando, para que encontros como esse continuem emocionando gerações de remadores que ainda estão por vir.