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Você rema em um clube ou em uma base? Essa pergunta pode parecer simples, mas diz muita coisa. Porque, no va’a, muita gente chama de base o lugar onde treina. E tudo bem. A base é o ponto de saída, o espaço da rotina, o lugar da canoa, do remo, da água.
Mas, se base é “onde se treina”, o clube é o que nos situa no mundo: é o nome que representa uma cultura; é o ambiente que acolhe; é a identidade que conecta pessoas; é o que liga alunos a professores, a eventos, a marcas e ao próprio jeito de viver a canoagem polinésia.
Por isso, quando penso no futuro do esporte, penso muito mais em “clube” do que em “base”. Penso que, sem clube forte, o va’a perde força.
Claro que títulos e resultados importam. Números também têm seu valor. Mas é nesse espaço que o va’a acontece de forma contínua: ali a pessoa conhece a modalidade, aprende a remar, cria amizades, descobre eventos e passa a sentir que faz parte. Na minha visão, sem esse conceito de clube o va’a perde a parte estrutural da sua força. Porque é esse ambiente que sustenta a relação das pessoas com esse universo no dia a dia. O que faz alguém querer ficar.
Muita gente chega por curiosidade. A pessoa quer experimentar, viver algo novo, sentir a canoa. Mas, na prática, quase ninguém decide ficar só por causa da remada em si. O que faz alguém permanecer é o ambiente. É o jeito como foi recebido, a energia do grupo, aquela sensação de ter encontrado um lugar onde se sente bem.
Antes mesmo de aprender qualquer técnica, quem chega já está lendo o clube. Percebe se foi acolhido ou apenas atendido. Sente se há abertura ou distância, se aquele espaço convida ou afasta. Às vezes, antes mesmo de entrar na água, a pessoa já sabe se quer voltar ou não. Porque clube, no fundo, também é construção diária.

No livro O Poder do Hábito, Charles Duhigg escreve: “Os hábitos não são destino.” Essa é uma frase que gosto de trazer para esse contexto, porque ela lembra que ambiente, rotina e cultura também podem ser construídos com intenção.
Talvez seja justamente aí que os clubes fazem o que há de mais importante no va’a: eles constroem uma rotina que vira vínculo, e um vínculo que acaba virando permanência.
Eu fico pensando em algumas perguntas que todo líder de clube deveria se fazer com sinceridade todos os dias. Quem chega ao seu espaço encontra apenas uma base de treino ou um acolhimento genuíno? A pessoa consegue entender rapidamente a cultura do lugar ou precisa adivinhar tudo sozinha? Você está só formando remadores ou também construindo um ambiente onde as pessoas queiram ficar? O jeito de corrigir aproxima ou afasta? As pessoas voltam só pela aula ou pela experiência completa que vivem ali?
Se eu estivesse à frente de um clube hoje, seriam essas as perguntas que eu me faria todos os dias. Porque um esporte forte não se constrói só com entrada de novos praticantes. Ele se constrói com base, sim, mas principalmente com clube.
No fim das contas, muita gente chega ao va’a pela canoa. Mas decide ficar pelo que encontra ao redor dela.
Sugestão de leitura: O Poder do Hábito, de Charles Duhigg.