
Bruno Gagliasso rema ao lado de centenas de golfinhos em Noronha
Os atores Bruno Gagliasso e Fernanda Paes Leme remam de canoa havaiana em Fernando de Noronha ao lado de ... leia mais

Como jornalista e remador, tenho acompanhado de perto a evolução da va’a há muitos anos. No Brasil, a canoagem polinésia cresceu fortemente associada a uma cultura esportiva, com boa parte dos clubes focados em competições, planilhas e treinos intensos para baixar o tempo na água.
Promover o esporte e a qualidade de vida é muito importante. No entanto, é fundamental lembrarmos que, tradicionalmente, os clubes de canoa possuem uma função social tão forte quanto a esportiva. Isso nos remete aos fundamentos de “Ohana”, palavra havaiana que define o conceito de família.
Na cultura polinésia, Ohana tem um sentido mais amplo do que os laços consanguíneos, abrangendo toda a comunidade na qual aquele clube está inserido. Em lugares de forte tradição da va’a, como o Taiti e o Havaí, é comum que as bases realizem ações sociais e de integração com o seu entorno, devolvendo à comunidade um pouco da energia que o mar lhes proporciona.
Foi pensando justamente nesse resgate cultural e humano que, no mês passado, o clube do qual faço parte aqui em Floripa, o Tribuzana Va’a, deu início a uma ação social muito bacana.
A ideia nasceu de forma natural, após uma daquelas clássicas rodas de conversa, que acontecem após as remadas de sábado, quando a remadora e pedagoga Kelly Matos, sugeriu aos proprietários do clube, Valéria Máximo e André Leopoldino, e aos demais presentes, que os alunos poderiam se reunir mensalmente para promover algum tipo de ação social. A ideia foi abraçada por todos imediatamente naquela mesma roda de conversa.
O espírito de ajuda, na verdade, não era novidade por ali. Nas trágicas enchentes do Rio Grande do Sul em 2024, o clube já havia se mobilizado, enviando roupas e alimentos doados pelos alunos às vítimas do desastre.
Com esse histórico positivo, Kelly, Valéria e André estruturaram a nova ideia: convidaram todas as pessoas que remam no Tribuzana a participarem de uma corrente de solidariedade contínua, com a proposta de doação de 1 kg de alimento por mês. Para facilitar a logística e manter o engajamento, uma caixa de arrecadação foi instalada na própria base do clube. A mobilização foi um sucesso absoluto. Logo em seu primeiro mês, foram arrecadados 50 kg de alimentos, que foram prontamente destinados ao Educandário Caminhos de Luz.

E o projeto não para por aí. A ação continuará ocorrendo mensalmente, com a distribuição de mantimentos para diferentes entidades de assistência da região. Além disso, o clube já planeja expandir as doações para incluir roupas, antecipando a chegada do inverno, que costuma ser bastante rigoroso aqui no sul do país.
Felizmente, a Tribuzana Va’a não é um caso isolado e deixo aqui os meus sinceros parabéns a todos os clubes espalhados pelo Brasil que já realizam algum tipo de ação social, mantendo viva a essência da canoa. E, para os clubes de todo o país que ainda não têm iniciativas desse tipo, fica o meu convite: mobilizem-se. A va’a nos ensina que, quando remamos juntos e cuidamos da nossa comunidade, nossa canoa vai muito mais longe. Aloha kākou!