
Alto astral na 5ª Volta à Ilha Grande de Va’a
Volta Ilha Grande de Va'a realiza sua quinta edição da já tradicional expedição de canoa polinésia por um ... leia mais

Em uma expedição de seis dias e 420 milhas náuticas, uma canoa de viagem oceânica tradicional, construída sem um único prego e guiada pelas estrelas, navegou para levar aos líderes mundiais um apelo pela proteção dos oceanos, reafirmando a sabedoria dos povos do mar como guardiões do planeta
Uma única vela se ergueu contra o azul do Pacífico, impulsionando não apenas uma embarcação, mas séculos de tradição, conhecimento e um apelo crítico para o futuro. No dia 29 de agosto, a canoa Vaka Tepuke partiu da remota província de Temotu, nas Ilhas Salomão, em uma jornada épica de 420 milhas náuticas (aproximadamente 778 quilômetros) até a capital, Honiara. A bordo, uma tripulação de 11 pessoas, incluindo uma mulher, carregava uma mensagem tão vasta quanto o oceano que navegavam: “Um oceano. Um povo. Uma água salgada”. Mais que uma viagem, a expedição foi um ato simbólico e poderoso, uma declaração viva destinada a ecoar nos corredores da 54ª Reunião de Líderes do Fórum das Ilhas do Pacífico (PIF), que começaria dias depois.

A viagem da Vaka Tepuke foi meticulosamente planejada para ser concebida como uma “sala de aula viva”. A canoa em si é uma obra-prima da engenharia ancestral melanésia. Construída inteiramente com materiais locais, cada peça foi esculpida, tecida e amarrada à mão, sem o uso de um único prego, seguindo técnicas passadas através de gerações.
A expedição foi liderada pelo capitão Ambrose Miki, um navegador que herdou de seu pai a arte de ler o mar e o céu. Em uma entrevista concedida à revista Flysolomons, Miki revelou que sua navegação dispensou qualquer tecnologia moderna como GPS. Em vez disso, ele se guiou pelas estrelas, pelas ondulações das marés e pelas correntes oceânicas, um conhecimento profundo que, segundo ele, “é um aspecto muito importante da cultura que devemos manter e praticar para a geração de hoje”.
A rota foi traçada para maximizar o impacto simbólico. Partindo das Ilhas Duff (conhecidas localmente como Taumako), a Vaka Tepuke navegou até as Ilhas Reef e, em seguida, para Lata. Lá, a expedição ganhou um poderoso aliado: a canoa tradicional fijiana Uto Ni Yalo, com seus 15 marinheiros de diversas nações da Oceania, unindo forças para levar uma mensagem unificada ao Fórum.
Durante seis dias, a tripulação viveu em completa sintonia com o oceano. A jornada foi um testemunho da resiliência humana e da sabedoria ancestral. Fiona Teama, Chefe de Vendas e Marketing do Turismo das Ilhas Salomão e descendente dos navegadores da província de Temotu, descreveu seu povo como “guiado por cada maré, corrente, direção do vento, sol, lua e estrelas“. A viagem da Vaka Tepuke foi a materialização dessa herança.
O desafio além de físico, foi, também, uma imersão espiritual. A viagem representou, nas palavras do capitão Miki, “um símbolo de prosperidade, unidade e paz“. A chegada em Honiara foi um evento emocionante, com uma multidão se reunindo para receber a canoa e sua tripulação, celebrando não apenas a conclusão da viagem, mas o poder da cultura e da união que ela representava.
A expedição da Vaka Valo Association & Tepuke Crew foi uma plataforma para destacar cinco pontos cruciais, uma carta de princípios navegada através do oceano:
A mensagem foi clara e direta: “Nós somos o oceano. Nós somos os guardiões. Nós somos a voz.” A viagem foi uma declaração de propósito e de administração ancestral, destinada a influenciar os líderes do PIF a levar essa pauta para a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), que foi realizada no Brasil em novembro do ano passado.

A chegada da Vaka Tepuke e da Uto Ni Yalo em Honiara teve um impacto tangível. Os líderes reunidos no Fórum se comprometeram com a “Declaração do Oceano Pacífico Azul da Paz”, um acordo histórico que reafirma o compromisso da região com a paz, a unidade e a cooperação. O Primeiro-Ministro das Ilhas Salomão, Jeremiah Manele, que presidiu o fórum, descreveu a declaração como “uma recuperação de nossa soberania e destino compartilhado” e “um voto solene de que nossos mares, ar e terras nunca mais serão arrastados para o vórtice da rivalidade das grandes potências”.
A jornada da Vaka Tepuke provou que uma pequena embarcação pode carregar a maior e mais importante das cargas: a esperança. Ela demonstrou que a sabedoria ancestral deve ser mantida como uma bússola essencial para navegar os desafios do presente e do futuro. A expedição terminou, mas sua mensagem continua a navegar para nos lembrar de que a saúde do nosso planeta depende da nossa capacidade de ouvir e honrar as vozes dos guardiões do oceano.