Lanakila: a saga da primeira canoa polinésia no Brasil

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Lanakila
A história da canoa havaiana Lanakila transcende a chegada de um objeto. Ela marca a introdução de uma nova cultura em nosso país. Foto: Arquivo pessoal

No final dos anos 1990, termos como “OC6”, Va’a” ou “outrigger canoe” eram praticamente desconhecidos no Brasil. Nesse vácuo, dois pioneiros, Ronald Zander Williams e Fabio Paiva, perseguiam o mesmo sonho sem saber. Separados pela distância, mas unidos por uma visão, ambos, cada um à sua maneira, estavam determinados a trazer a primeira canoa polinésia para as águas do país.

Essa jornada hercúlea começou bem longe do Brasil, nas águas geladas do Canadá, onde Ronald vivia na época. Em uma fase de transformação pessoal, ele encontrou no remo muito mais que um exercício físico. “Eu era uma pessoa sedentária, nunca fui atleta, fumava quando bebia… E fui apresentado à canoagem. Essa canoa transformou a minha vida”, confessou em um comovente relato anos depois. Ele remou inicialmente na categoria “Malia”, uma canoa tradicional havaiana onde o respeito à embarcação e aos companheiros era sagrado. Foi ali que ele assimilou a essência comunitária do esporte,

Ron, como é mais conhecido, treinava e competia no Canadá e Estados Unidos tanto em outrigger canoe quanto em dragon boat. Ele competia pelo False Creek Racing Canoe Club em Vancouver, um clube que formou vários canoístas olímpicos canadenses, e quando voltou a morar no Brasil, teve que interromper os treinos, mas precisava retomar aquela rotina, que era uma parte muito importante da sua vida o incomodava muito pensar que não havia canoagem polinésia no Brasil, mesmo com tanto litoral e potencial para a modalidade. Desde o seu retorno, em 1995, ele começou a trabalhar para trazer a primeira canoa.

A missão era repleta de obstáculos. Não havia canoas polinésias à venda na América Latina, e o custo para importar uma peça tão grande era proibitivo. Em uma busca incansável, Ronald encontrou sua oportunidade na Califórnia, com o construtor e canoísta Dennis Campbell; uma canoa encomendada por um clube que havia desistido da compra. Essa era a chance que ele precisava.

A canoa, uma OC6 (Outrigger Canoe para seis remadores), estava inacabada, mas era viável. O transporte, no entanto, era um quebra-cabeça logístico. A embarcação era grande demais para um contêiner padrão. Foi então que dois personagens fundamentais para o sucesso dessa empreitada finalmente se encontraram.

Campeão brasileiro de canoagem e figura de destaque das corridas de aventura, que eram uma febre na época, o santista Fabio Paiva, sem conhecer Ronald (ou saber de sua intenção de trazer uma canoa para o Brasil), havia tomado contato com a va’a após assistir a vídeos da modalidade durante uma viagem à África do Sul, onde participara de uma competição, e também estava em busca de trazer um modelo para o Brasil. Com o apoio do amigo Frederico Diez Pérez, o “Fred”, que atuava no setor de transporte marítimo, descobriram um fórum online dedicado à canoa havaiana. Foi nesse espaço que conheceram Ronald e souberam de seu plano de trazer uma canoa OC6 para o Brasil. Unidos pelo mesmo propósito, os três fecharam um acordo para realizar a empreitada.

Como a embarcação não cabia em um contêiner padrão, foi necessário transportá-la como carga solta a bordo de um navio e a experiência de Fred foi determinante para que a importação fosse bem-sucedida. A viagem começou na Califórnia, passou por Houston em uma carreta e, por fim, cruzou o oceano até o Brasil, um processo complexo que levou mais de um ano para ser concluído.

Assim, após uma verdadeira odisseia, chegou ao porto de Santos a Lanakila, nome havaiano que evoca “vitória” ou “conquistador”. Ronald trouxe ainda uma V1, ampliando as possibilidades de prática do esporte no país. Parte do acordo previa a reprodução da OC6 por Paiva, que já fabricava caiaques na Opium, sua empresa. Foi uma oportunidade única: a Lanakila ainda não havia sido montada, e suas peças desmontadas permitiram a cópia fiel sem a necessidade de desmanchar uma embarcação pronta, como seria usual.

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Em uma época de informação escassa, o simples ato de colocar a Lanakila na água já era uma enorme aventura. Foto: Arquivo pessoal

No início, Ronald havia, junto com seu amigo Sérgio Koenigsfeld, considerado a produção de canoas no Rio de Janeiro. Sérgio havia adquirido bastante experiência na construção de embarcações após anos trabalhando em estaleiros no Rio de Janeiro, porém ambos concordaram que Paiva não só detinha vasta experiência na produção de canoas e caiaques, como também possuía toda a estrutura necessária para abraçar esse projeto.

Mas a chegada foi apenas o primeiro capítulo. O verdadeiro desafio começou na água. Enquanto Fábio Paiva dava vida às primeiras va’a 100% brasileiras, a partir do molde da Lanakila, Ronald montou um clube improvisado na casa do Sérgio, que por sua vez reuniu amigos que nunca tinham remado para experimentar esse novo esporte. As primeiras saídas na Barra da Tijuca, especialmente na perigosa e desafiadora foz do canal da Joatinga, foram verdadeiras aulas de superação. A sincronia era inexistente, porém, Ronald sabia que mesmo com seus anos de va’a, implementar técnica a quem jamais remou levaria algum tempo. Os acidentes eram eminentes e a Lanakila, sendo a primeira canoa do país, era um tesouro a ser protegido a qualquer custo. Enquanto isso, em Santos, Fabio Paiva também dava os primeiros passos rumo à popularização do esporte criando uma guarderia dentro do Clube de Regatas Santista, conhecido por ser o primeiro clube de remo do país, para acomodar as canoas OC6 recém-produzidas pela Ópium. A guarderia se tornou o clube Canoa Brasil, que segue ativo até os dias de hoje.

Mas essa história é sobre a nossa primeira canoa havaiana e sobre as primeiras remadas com a Lanakila no Rio de Janeiro, Ronald conta bem-humorado:

“A primeira vez que eu tive acidente na boca do canal, todo mundo saiu de perto e eu fiquei em pé nas pedras segurando a canoa, voltaram quando perceberam que eu não sairia dali e juntos levamos Lanakila até a praia em segurança”, relembra Ronald. A dedicação era absoluta. Essas primeiras aventuras forjaram um espírito de equipe e uma resiliência que se tornaram a marca dos pioneiros da canoagem polinésia brasileira.

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A primeira travessia da Lanakila foi devidamente registrada pela imprensa carioca. Foto: Arquivo pessoal

A estratégia para apresentar a Lanakila ao grande público foi viabilizada através de mais uma parceria entre Ron e Fabio Paiva. Já profundamente envolvido com esportes de aventura e expositor na Adventure Sports Fair, em São Paulo, Paiva buscava meios de incluir a então novidade da canoa havaiana nessas competições. Para isso, ele adquiriu um estande de grandes dimensões na feira e convidou Ronald para participar de uma reunião com os organizadores do evento, com o objetivo de garantir um espaço para a apresentação da embarcação.

A reunião deu certo e o espaço foi concedido. Entendendo que se tratava de uma oportunidade única, Ronald foi meticuloso. Ele não apenas exibiu a canoa em um corredor da feira, mas também encomendou com a designer gráfica Sylvia Pucheu um livreto detalhado com fotos e explicações sobre a cultura polinésia, as diferentes modalidades (OC6, V6, surfe de canoa, vela) e as regras básicas. Montou até uma TV com uma fita VHS da Molokai Hoe, a mais famosa competição de canoas do mundo, para que os visitantes vissem a emoção de uma prova de revezamento. “Ninguém nunca tinha visto isso, a não ser quem assistia ‘Havaí 5-0’ na abertura da série”, brincou. Foi um trabalho de evangelização, apresentando ao público brasileiro um universo completamente novo. Simultaneamente foi lançado o site outrigger.com.br

Em 1999, Ronald havia fundado o primeiro clube de canoa do Brasil, o Outrigger Rio Clube – Rio Va’a Hui Hoe – C.N.P.J – 06.119.848/0001-10. Registrado na Federação Internacional de Va’a (IVF) com a Lanakila, o clube começou sua trajetória com cerca de 20 remadores, utilizando apenas a canoa pioneira. O CNPJ do Clube é o mesmo usado pelo clube Rio Va’a até hoje. Vale ressaltar, que o mesmo movimento acontecia em Santos, através do clube Canoa Brasil, fundado por Paiva, que inicialmente contou com a adesão de remadores paulistas vindo das provas de esportes de aventura, como Carmen Lúcia, Everdan Riesco, Rafael Leão, entre outros.

A semente plantada rapidamente germinou. Após mudar a base da Barra da Tijuca para a Praia Vermelha com o apoio da canoísta Simone Duarte, Ron negociou a fabricação de mais duas canoas com Fábio Paiva; Kilauea e a Kane. Através de Sérgio Koenigsfeld, personagens fundamentais apareceram, como Clovis Bordini, Rogério Magalhães, Eugênio Azevedo, Marcelo Depardo e Nicolas Bourlon, que se encantou com o esporte ao reencontrar no Rio as canoas que conhecera no Havaí na infância.

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Hoje, a Lanakila só vai para água em ocasiões especiais. Foto: Arquivo pessoal

Nicolas não apenas se juntou ao grupo, mas tornou-se um pilar organizacional. Apesar da ajuda desse grupo de pioneiros, Ronald era o único com experiência prévia de clubes de va’a, competições e contatos na comunidade internacional e carregou inicialmente o peso de trazer remos, ensinar técnicas de remadas e amarras àquela primeira geração de remadores do RJ. Nicolas decidiu ajudar. “Eu vi que o Ronald, como todo pioneiro, estava sobrecarregado… Pensei: vou ter que me envolver e ajudar pra isso dar certo”. E realmente era necessário que as atividades do clube não dependessem mais de importar equipamentos. Foi onde Eugênio Azevedo exerceu papel fundamental posteriormente auxiliado pelo Marcelo Depardo na fabricação de canoas e remos.

O espírito era de comunhão e desafio coletivo. Em 2001, Fabio Paiva realizou a primeira competição de va’a do Brasil, a Vedacit Aloha Santos. 12 equipes formadas por remadores de SP e RJ marcaram presença na competição, realizada nos dias 24 e 25 de agosto de 2001. Enquanto isso, no Rio de janeiro, na falta de eventos locais era necessário buscar seus próprios desafios. O que os levou a fazer a travessia Rio-Angra dos Reis e a participar da prova “La Porquerollaise” na França. sem ter outras equipes para competir. “Éramos nós remando contra nós mesmos”, recordou Ronald. A “escola” foi dura, mas forjou remadores resilientes. O esporte começou a criar raízes mais fortes, e em 2002, realizaram a primeira prova oficial no Rio, idealizada por Nicolas; a Rio Va’a, uma prova que, surpreendentemente, se manteria viva e cresceria ano após ano, chegando à sua vigésima quinta edição.

A comunidade cresceu, impulsionada pelo espírito associativo e voluntário que é a alma da canoagem polinésia em todo o mundo. Como destacou Nicolas, é um esporte onde “a canoa não sai da areia se todo mundo não estiver junto”.

A história da Lanakila transcende a chegada de um objeto. Ela marca a introdução de uma cultura. Ela carregava consigo não apenas a madeira e a fibra, mas rituais e tradições. Das remadas desengonçadas no canal da Joatinga às competições internacionais, a trajetória da canoagem polinésia no Brasil é um testemunho do poder de uma ideia e da tenacidade de seus pioneiros. Esta canoa havaiana não foi apenas a primeira; ela foi a âncora de uma comunidade.

Hoje, décadas depois, vemos o fruto desse pioneirismo: clubes ativos, atletas de alto nível, campeões nacionais e internacionais, e uma cena vibrante de canoagem polinésia no Brasil. Tudo começou com um sonho aparentemente impossível e uma canoa chamada Lanakila, que verdadeiramente conquistou seu lugar nas águas brasileiras.

O renascimento

Após o nauifrágio na Joatinga, a recuperação dos seus fragmentos, processo que envolveu 2 dias de mergulhos no canal, a Lanakila não foi apenas reconstruída em 2017, ela renasceu. Foto: Arquivo pessoal

Em 2014, a histórica canoa Lanakila enfrentou seu maior desafio: um naufrágio na saída do Canal da Joatinga enquanto era conduzida para o Campeonato Mundial de Va’a na Lagoa Rodrigo de Freitas. Após a recuperação dos seus fragmentos, processo que envolveu 2 dias de mergulhos no canal, ela não foi apenas reconstruída em 2017, mas verdadeiramente renascida. Esse renascimento foi celebrado com um novo batismo na Praia Vermelha, em uma cerimônia emocionante que reuniu seus remadores ao longo dos anos. Hoje, como um símbolo vivo da história do esporte, a Lanakila repousa no Clube Rio Va’a, deixando o cavalete apenas para eventos de grande significado, onde sua presença carrega o peso de toda a sua trajetória.

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