
Galeria de imagens da Iron Va’a 2021
Galeria de imagens com momentos da eletrizante Iron Va'a 2021, competição de canoas polinésias realizada ... leia mais

As competições são uma ferramenta essencial para maximizar o potencial, estimular a disciplina, o foco e o trabalho em equipe. Enfrentar adversários em competições oferece aos atletas a oportunidade de medir sua evolução e identificar pontos de melhoria. É nas disputas, com os desafios reais da pressão e da responsabilidade, que o competidor se transforma de bom para excepcional.
Por esse motivo, as competições não são apenas uma chance de ganhar medalhas, são um teste para seu preparo físico e mental, a pressão da disputa ensina a lidar com o estresse, a manter o foco mesmo nas adversidades. Competir impulsiona os atletas a melhorar o seu desempenho e redefinir limites pessoais, não apenas nas provas, mas, também nos treinos.
Portanto, são fundamentais para a evolução do atleta porque transformam o esforço em resultados concretos, fortalecem o caráter, aproximam as pessoas e incentivam um ciclo contínuo de evolução. Os esportes nunca teriam a evolução e o nível que tem hoje sem as competições.
Porém, tenho notado que, ao contrário de outros esportes, a competição no va’a deixou de ser um prazer por competir, uma diversão ou uma superação em cruzar a linha de chegada. Está se criando uma cultura na qual só interessa o pódio, a medalha. Como consequência, os organizadores de provas têm que criar mais categorias para possibilitar que todos ou quase todos subam ao pódio. O número de medalhas atualmente está bem próximo ao número de inscritos, quando não ultrapassa: na prova Rio Va’a dos últimos anos, a quantidade de medalhas encomendadas superou o número de inscritos!
“O número de medalhas atualmente está bem próximo ao número de inscritos, quando não ultrapassa”
O resultado disso é uma premiação muito longa onde as pessoas não querem esperar até o final e ficam brigando com os organizadores para serem premiados primeiro. Também há casos de retaliação a provas com menor quantidade de categorias.
Em casos mais extremos, a fome por medalha é tão grande que atletas chegam a tentar de todas as formas desclassificar quem chegou na sua frente para ganhar a medalha, criando motivos que não existiram, ou até motivos insignificantes, que não trariam vantagem para a outra canoa chegar na frente, como falar que a “canoa não tinha apito”, ou “estava sem uniforme”, ou “invadiu a raia ao lado em alguns centímetros”.
Há alguns anos eu me desmotivei de competir em equipes. Por um lado, não existia uma seleção justa para a montagem de times, que chamavam gente que não treinava no dia a dia do clube. Por outro, falta coletividade: as pessoas não chegavam junto para desmontar a canoa, colocar na carreta, chegavam na hora da prova e nem ficam até o final (que não é na linha de chegada, e sim quando tudo está guardado no seu lugar e a canoa no cavalete).
Na busca pela medalha a todo custo surgem os “catadões”, que pegam os melhores de cada clube, deixando de lado o sentimento de Ohana dos clubes, em nome da performance. Então, quando você estiver em uma canoa dessas se pergunte: Todos os que estão aqui ajudaram a montar a canoa? Se eu estivesse competindo com essas pessoas em canoa individual e encostasse, sem intenção, na canoa deles eles falariam: “Bora! Vamo!”, ou te xingariam? Você pode achar isso absurdo mas eu já presenciei um episódio como esse! Num dia estavam na mesma canoa competindo e no outro estavam se xingando.
Esta semana, fiz uma tomada de tempo no meu clube para formar uma equipe da forma mais justa possível e aconteceu o inesperado. Montamos um time, com duas pessoas aposentadas e a maioria com mais de 50 anos, para competir na categoria estreantes, onde a maioria tem entre 20 e 30 anos. Durante a tomada de tempo, um dos remadores virou a canoa e não conseguiu subir de novo. Eu e ele levamos a canoa até a areia. Ele queria desistir, mas toda a equipe o incentivou a tentar novamente e completar o percurso, demonstrando um forte espírito de união e companheirismo. Ele conseguiu e entrou para a equipe.

Certamente, essa equipe não chegará em primeiro lugar, mas será uma das mais unidas e companheiras da prova. Estarão felizes mesmo sem medalha. Para mim, foi muito gratificante montar essa equipe, pois sei que estou motivando não só eles, mas toda a nossa Ohana, que vendo a garra deles, também se inspira a continuar treinando.
Aos que competem, que o triunfo venha na raça e no braço, não na injustiça ou na “crocodilagem”. Em todas as provas que participo, vejo situações desse tipo: gente querendo largar na frente, competir em categorias erradas ou tentar desclassificar adversários de forma desleal. Vamos praticar o fair play. Caráter, humildade e companheirismo são tão importantes quanto o desempenho.
Para mim, um competidor que interrompe sua prova para ajudar alguém que também está competindo merece uma medalha tanto quanto quem chega em primeiro. Esse é o verdadeiro espírito Va’a.
A ética nas competições, especialmente nas provas de canoa polinésia, é essencial para garantir o espírito de respeito, justiça e camaradagem entre os atletas. As provas de va’a carregam uma profunda conexão cultural e tradicional que vai além do simples ato de competir, valorizando o equilíbrio entre desempenho físico e respeito pelo meio ambiente e adversários.
Durante as provas é essencial o cumprimento das regras estabelecidas, o respeito aos cronogramas e o percurso do evento, não apenas pelos remadores que estão competindo, mas por todos os remadores de canoa da região, evitando interferências indevidas no percurso ou atitudes que possam comprometer a segurança dos demais atletas e do público.
A ética nas competições de va’a promove não só o crescimento esportivo, mas também o fortalecimento dos valores culturais e sociais que cercam essa prática ancestral. Competir com ética é honrar a tradição, valorizar o esforço pessoal e coletivo, e garantir um ambiente saudável e justo para o esporte e para todos os envolvidos.